quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Meu ideal seria escrever ...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse - "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria - "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse - e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse - "por favor, comportem-se, que diabo! - eu não gosto de prender ninguém!". E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago - mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem - "Mas de onde é que você tirou essa história?" - eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
Do grande escritor e cronista, Rubem Braga (1967).


Meu ideal é poder contar a muitos o que aprendi lendo e o que me ensinaram os poetas ao lê-los.  É poder demonstrar o meu amor, o que não consigo demonstrar nos gestos ou em palavras: Isso ainda é uma barreira a ser quebrada! Espero ainda, que eu seja uma formiguinha neste mundão a incentivar a escrita e a leitura sublime das Obras que tão bem, tantos e tantas fizeram. Mestres na arte de escrever e contar histórias através dos tempos.

Por Betho Medeiros

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Experiências de Vida

A cada novo dia e com o passar de todos eles somos convidados à experienciar coisas para o nosso próprio aprendizado. São elos da corrente que vão se formando.
           É impossível não vivermos de pequenos e grandes momentos: são eles que nos fazem experienciar à vida nas suas múltiplas lições. O aprendizado deve ser constante. Somos sociáveis e como tal precisamos de estímulos para ir escrevendo a nossa história. Ir preenchendo as páginas brancas do livro.
Alegrias, tristezas, aprendizados, partilhas, sonhos, dores, afetos, buscas, realizações, chegadas e partidas. Tudo assim, não nessa ordem, mas assim!
É preciso olhar pra aprender, entender o não entendível, equilibrar razão e emoção, corpo e espírito.
Muitas perguntas, poucas respostas. Somos movidos pela curiosidade, pelo questionamento. É preciso experienciar de tudo um pouco. Ir vivendo! Buscar as respostas com a vida que nos foi dada. Viver pra no fim ir embora. Não ficar pra ver o resto.
Pra quê se tudo é passageiro? Julgar os que escolhem ir é grave. O natural e o que estamos acostumados é esperar pela partida. Nunca o contrário. Mas a partida pode ser a última experiência da vida. É sofrimento para os que ficam. Alivio pra quem vai...?!
É complexo, mas é real e acontece. A cultura da partida é experienciada de muitas formas. É ritual de passagem e ainda não nos acostumamos. Mas está aí! Razão ou loucura não se sabe. Não me atrevo a julgar, só acredito na possibilidade de ficar, mesmo partindo.
A vida só acaba quando deixamos de viver na lembrança das pessoas.  Viver é morrer aqui, mas continuar vivo dentro de cada um que ficou! Nós é que somos responsáveis pela permanência dos que já partiram no meio de nós!

Por Betho Medeiros